1970

Janeiro

Estabelecimento dos primeiros contactos de militares portugueses do estado-maior de Spínola com chefes militares do PAIGC, numa tentativa de aliciamento para estes fazerem parte da futura força africana da Guiné, que se integrava na sua maneira política

Estabelecimento de uma base de apoio para a Operação Mar Verde na ilha de Soga, Bijagós, na Guiné, onde foram reunidos e treinados militares portugueses e elementos da oposição da Guiné-Conacri

Criação dos primeiros seis grupos especiais (GE) de milícias, em Moçambique, num total de 550 homens

Grande ofensiva militar do PAIGC contra as posições portuguesas de Guilege, Guidage, São Domingos e Gadamael

Plano de emprego dos refugiados catangueses e zambianos

15

Remodelação ministerial, com Sá Viana Rebelo a assumir a pasta do Exército e Rui Patrício a dos Negócios Estrangeiros

22

Reunião preparatória da Conferência Internacional de Apoio aos Povos das Colónias Portuguesas realizada em Roma pela OSPAA (Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos), que decide realizar a Conferência em Roma, em 27 a 29 de Junho

27

Constituição de uma comissão em Lisboa, para assuntos do Estado da Índia

28

Os Estados Unidos decidem fornecer a Portugal equipamento militar «não letal»

Fevereiro

Vaga de prisões de estudantes africanos das universidades portuguesas

Conversações secretas em Dacar entre delegações de Portugal e do Senegal, com vista a um cessar-fogo na Guiné

20

Prisão do pároco de Belém (Lisboa), padre Felicidade Alves, por denunciar a situação da guerra colonial

Março

Reorganização das forças do PAIGC, com formação do corpo de exército de Nhacra-Eenxalé, numa nova divisão territorial correspondente a novo patamar do seu processo evolutivo previsto por Amílcar Cabral

Confirmação da existência de uma unidade de artilharia do PAIGC equipada com foguetões GRAB-1, 122 mm

Autorização de despesas, a contrair pelo Governo Português, de um milhão e quinhentos mil contos, para reequipamento extraordinário do Exército e da Força Aérea

20

Constituição de uma comissão governamental para o estudo da integração europeia de Portugal

31

Posse de Kaúlza de Arriaga do cargo de comandante-chefe de Moçambique

Abril

Inauguração em Estocolmo de uma exposição documental organizada pelo MPLA sobre as actividades politicas deste movimento e o auxílio sueco ao movimento

Referência num discurso em Mansoa, feito por Spínola diante do ministro do Ultramar, Silva Cunha, ao facto de a Guiné estar a viver um grande momento, por se aproximar o fim da guerra

Organização de um curso de «guerra subversiva» pela Legião Portuguesa, com exercícios na Serra de Sintra

Protesto de Portugal na ONU por a Assembleia Mundial da Juventude, realizada sob a égide da ONU, ter convidado directamente representantes de Angola, Moçambique e Guiné sem o conhecimento do Governo português

1

Conferência de imprensa de Mário Soares em Nova Iorque, condenando a guerra colonial

14

Costa Gomes, comandante-chefe de Angola

20

Morte dos majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Magalhães Osório, na Zona de Teixeira Pinto, na Guiné, durante uma acção de contacto com elementos do PAIGC

Maio

Novo pedido de U’Thant aos países para acatarem as resoluções da ONU, o que não acontece com Portugal, frisando que «os Estados membros devem tomar cautela para não caírem na armadilha de se tornarem inimigos da ONU»

Informação de Portugal ao secretário-geral da ONU de que não participaria na Assembleia Mundial da Juventude, a realizar em Julho

Tentativa de formação de um movimento único de oposição à Frelimo

Visita de Léopold Senghor aos países escandinavos, declarando em Estocolmo que «tinha proposto um plano de paz aceite por Amílcar Cabral, residindo a dificuldade da sua aplicação na obtenção do acordo dos portugueses»

Reorganização territorial do Exército em Portugal e nas colónias

10

Nomeação de Samora Machel como presidente da FRELIMO

23

Ataque do PAIGC ao navio Alvor no rio Cacheu, com lança-granadas-foguete

29

Visita a Lisboa do secretário de Estado norte-americano, William Rodgers

Junho

Conferência de imprensa de Samora Machel em Dar-es-Salam, na qual, referindo-se a Cahora Bassa, afirmou que o impedimento da sua construção continuava a ser o principal objectivo militar da Frelimo, só podendo obter-se pela força das armas

1

Acção da FNLA na zona de Toto contra uma viatura civil, que marca o reinício da sua actividade na zona, depois de ano e meio sem incidentes

7

Anúncio por Marcelo Caetano e Richard Nixon, sobre a efectivação de consultas periódicas entre os dois governos

15

Publicação pela revista alemã Der Spiegel, de fotografias sobre atrocidades cometidas em Moçambique pelas tropas portuguesas

19

Prisão em Lisboa de vários cristãos por assumirem posições contra a guerra colonial

27

Inicio da Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas, realizada em Roma

Julho

Alargamento do apoio dos países nórdicos ao MPLA, com especial relevo para a Suécia com ajuda financeira e material

Abordagem da questão do emprego de produtos químicos pelas tropas portuguesas, nas emissões de rádio do MPLA

1

Divulgação pela Acção Socialista Portuguesa da sua Declaração de princípios, na qual considera necessário a abertura imediata de negociações para por fim às guerras

Visita a Lisboa do vice-presidente norte-americano Spiro Agnew

Recepção pelo Papa Paulo VI dos dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos

Início da Operação Nó Górdio, em Moçambique

6

Assalto das tropas portuguesas à Base Gungunhana da FRELIMO, no planalto central, durante a operação Nó Górdio

7

Nota da Secretaria de Estado do Vaticano ao Governo Português sobre a recepção do Papa aos dirigentes nacionalistas

9

Inicio da Assembleia Mundial da Juventude, no âmbito das comemorações do 25º aniversário da ONU, com a presença de 110 países, em cuja mensagem final se denuncia a «guerra colonial empreendida por Portugal contra os povos de Angola, Guiné e Moçambique»

12

Ataque de um grupo de guerrilha da FRELIMO ao quartel de Miteda, em Cabo Delgado, só retirando após a utilização de helicanhões pelas tropas portuguesas

25

Queda de um helicóptero na Guiné, de que resultou a morte dos deputados José Pinto Leite, Leonardo Coimbra, Vicente de Abreu e Pinto Bull

Agosto

Os presidentes da Zâmbia e do Senegal declaram a sua disposição de contribuírem para a resolução do problema colonial português

Confirmação da existência de conselheiros cubanos junto do PAIGC pelos comandos militares portugueses

6

Fim da Operação Nó Górdio, em Moçambique

11

Ataque do PAIGC à lancha Sagitário, 13º efectuado a unidades navais ao longo do ano, facto que leva o comandante da Defesa Marítima a salientar a «liberdade de movimentos que o inimigo goza na margem sul do Cacheu» e a notar a melhoria da eficiência do ataque

12

Inicio das reuniões da Comissão de Descolonização da ONU, cujas moções contém ataques mais sistemáticos contra os governos brancos da África Austral e seus aliados, reflectindo a preocupação por uma anunciada mudança da política externa britânica

15

Deserção de seis tenentes milicianos, ex-alunos da Academia Militar, a quem viria a ser concedido asilo político na Suécia

19

Assalto ao navio Pérola do Oceano, em Cabo Verde, por um grupo de militantes políticos que pretendiam dirigir-se a Dacar

29

Rebentamento de um engenho explosivo na Embaixada de Portugal em Washington, sendo desmontado outro engenho no gabinete dos adidos militares

Setembro

Artigo de Aquino de Bragança na revista Afrique-Asie intitulado «Dacar face a Lisboa» analisando as relações entre Portugal e o Senegal na sequência dos acontecimentos de fronteira e do plano de Senghor para a solução pacifica da questão colonial

Referência nas emissões da rádio Angola Combatente do MPLA, a diversas atitudes de oposição à guerra em quartéis em Portugal

Entrega ao GRAE, através de Holden Roberto, em Kinshasa, pelo embaixador de Israel, de um lote de medicamentos, na continuação do auxílio prestado por aquele país à FNLA

8

Inicio da III Conferência plenária dos Países Não Alinhados em Lusaka que pede um apoio mais eficaz e uma maior ajuda financeira aos movimentos de libertação africanos e convida todos os governos a absterem-se de financiar a barragem de Cahora Bassa

15

 Apresentação do relatório anual de U’Thant à Assembleia Geral da ONU referindo, em relação a Portugal que «após nove anos de luta armada deve ter-se tornado evidente ao Governo português qual a politica que poderá abrir a porta a negociações pacificas»

27

Conversa em família de Marcelo Caetano, em que acusa as Nações Unidas de instigarem a «subversão no Ultramar»

Outubro

Convite a todos os voluntários que queiram participar activamente na luta de libertação, feito por Paul Touba, membro do GRAE, na Comissão de Curadorias da ONU, primeira vez que é feito semelhante convite num órgão oficial da ONU

14

Aprovação pela Assembleia Geral da ONU dum programa de acção destinado a acelerar a obtenção da independência dos povos coloniais, sendo proclamado como documento comemorativo do 10º aniversário da Declaração de Descolonização e do 25º da ONU

26

Acção da ARA contra o navio Cunene, fundeado no porto de Lisboa e pronto a partir para África com material de guerra

29

Acção de sabotagem no navio Vera Cruz em Lisboa

Criação da associação Sedes, como esboço de um partido politico de tendência moderada

Novembro

Aprovação pela Comissão Política Especial da Assembleia Geral da ONU, constituída por 127 países, de uma resolução recomendando o aumento do auxilio aos movimentos de libertação, em cuja votação apenas Portugal foi contra

6

Proposta do presidente da Costa do Marfim, Houphouet Boigny, para a realização de uma conferência africana para abertura de um diálogo com Portugal e a África do Sul

12

Pedido de Spínola para uma operação na Guiné-Conacri

17

Aprovação da Operação Mar Verde por Marcelo Caetano

19

Seminário de quadros do PAIGC em Conacri presidido por Amílcar Cabral, onde este declara: «è mais fácil, ou menos difícil, para nós ganhar a guerra de libertação nacional do que garantir ao nosso povo uma vida de trabalho, dignidade e justiça»

22

Início da Operação Mar Verde, envolvendo um efectivo de 350 homens com 25 objectivos na área da cidade e porto de Conacri, cujo único resultado foi a libertação de militares portugueses prisioneiros

Reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU a pedido da Guiné-Conacri, na qual foi aprovada uma resolução em que é exigida a «retirada imediata de todas as forças armadas e de todos os mercenários estrangeiros» da República da Guiné

23

Aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU, do envio de uma missão especial à República da Guiné para investigar as acusações de que as forças portuguesas haviam invadido Conacri

29

Comunicado do Comando-Chefe da Guiné a anunciar terem-se apresentado na fronteira os militares portugueses «retidos» na Guiné-Conacri, por se terem conseguido evadir. Na realidade, eram os militares postos em liberdade pela Operação Mar Verde

Dezembro

Primeiras notícias da possível aquisição, por parte do PAIGC, de mísseis terra-ar

Cedência de uma verba de quase cinco milhões de dólares pelo Governo americano, produto da venda de alimentos para a paz, para reconstrução e recuperação de zonas danificadas em consequência da invasão de Conacri

Conferência do PAIGC, de alto nível, em Zinguichor, em cujo comunicado se refere que durante a luta se evitaria «molestar as populações, incluindo as que vivem sob controlo das forças portuguesas»

2

Entrega pelo Governo à Assembleia Nacional de uma proposta de revisão constitucional, prevendo um estatuto de autonomia interna para as províncias ultramarinas

4

Deserção de três oficiais do Exército, que se refugiam na Bélgica

8

Aprovação pelo conselho de Segurança de uma resolução baseada no relatório da missão especial à República da Guiné, enviada para investigar a invasão de Conacri, que considera o colonialismo português uma séria ameaça à paz e segurança de África. Esta resolução condena também a construção da barragem de Cahora Bassa

12

Declaração do chefe da delegação americana na ONU, Charles Yost, revelando que os Estados Unidos não tinham qualquer razão para duvidar das conclusões da comissão especial da ONU que investigou os acontecimentos de Conacri e o envolvimento de Portugal

14

Resolução da Assembleia Geral da ONU censurando a politica colonial portuguesa e pedindo a Portugal que não utilizasse meios de guerra química e biológica contra as populações

17

Julgamento do padre Mário de Oliveira, pároco de Maceira da Lixa, por oposição à guerra